quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A FELICIDADE ESCONDIDA



Como seres humanos em constante transformação vivemos em busca de elementos que nos torne mais realizados ou plenos. Mas afinal, o que buscamos nesta vida, qual a real finalidade na nossa existência?

Respostas podem ser dadas de varias formas, responder ou não nossas indagações, nos tranquilizando ou inquietando ainda mais, nos tornando utópicos ou realistas de mais.

Certo é que buscamos algo, que nos dê uma resposta imediata, capaz de nos acalmar diante da incerteza de existir. Diante das frustrações da vida nos iludimos com as migalhas que encontramos pelo caminho Achamos que encontramos o prazer de ser pleno, a felicidade. 

Com isso mergulhamos de cabeça, nos doamos plenamente ou ainda titubeamos diante das decisões e sentimentos que surgem no calor das emoções.

Ao nos doarmos, vivemos momentos alegres, frações de um todo inexplicável e imensurável, estes momentos nos tocam todos os dias, nos enganam com sua finitude. 

Diante disso, a Felicidade que buscamos, vislumbra-se como um fim último da nossa existência humana falha e imperfeita. Para alcançá-la às vezes caímos em ciladas, percorremos caminhos escusos, cheios de pedras que nos impossibilitam de perceber que nos mais simples atos do nosso dia se escondem a beleza de ser feliz.

Num sorriso de uma criança que ao acordar de um sono tranquilo reconhece seus pais e para eles distribui o mais belo e puro dos sorrisos. No brilho e na beleza de um novo dia que nasce todos nos iluminando o caminho.

Portanto, a felicidade escondida está em cada segundo na nossa existência, nos dá a oportunidade de vislumbrá-la em cada ato ou pessoa sua essencia , cabe a nós perceber que o que buscamos nesta vida é a plenitude de viver, e viver cada momento com plenitude, experimentando a felicidade de viver e viver em Deus.     

As delicias do jardim

 

As delicias do jardim


1. As delicias do jardim: José Américo Motta Pessanha
1.2. Epicuro

           Epicuro nasceu em Samos em 341 a.C. e foi o responsável pela criação de uma das grandes escolas helênicas que surge em Atenas (307 / 306 a.C.).
Podemos ter uma referência física do jardim, como um lugar escolhido por Epicuro, lugar esse que fosse propício para o desenvolvimento de seu pensamento, concebido na filosofia, como: “arte de viver”. Que tipo de pensamento intuía Epicuro? qual novidade trazia seu pensamento? Quais foram os modos para transmiti-los? O presente trabalho, abordará a sua física fundada nos átomos, como em Demócrito, como também sua moral e ética.
       A filosofia materialista de Epicuro reduzia todo o conhecimento à existência sensível, revogando a metafísica e toda forma de transcendência. Um dos seus seguidores fiéis, em Roma foi Lucrécio, que em um de seus textos, revela tal pensamento de Epicuro.

Além disso, explicarei por que força inflete e governa a Natureza o curso do sol e o andamento da luz, para que não se acredite por acaso que eles prosseguem espontâneos e eternamente nos seus caminhos entre céu e terra, a fim de favorecer o crescimento de plantas e animais, nem se julgue que giram impelidos por qualquer vontade divina. (AQUINO; DENISE; OSCAR, apud Lucrécio, 1980, p. 264).

         A sabedoria era a regra da existência, onde a razão era a iluminadora. Estavam no jardim aqueles amigos da sabedoria, era uma espécie de confraria laica, que unia a razão iluminada pela sabedoria e o amor a humanidade. Segundo  B. Farrington:“[...] Na literatura epistolar endereçada às suas comunidades esparsas no oriente, Epicuro parece ser o precursor de São Paulo”. Se todo o bem específico de Epicuro provém do material e sua forma de vida é negar a dor e buscar o prazer, tal prazer, segundo a ética epicurista, seu fim é eliminar a dor, ou seja, são os prazeres naturais e necessários. No entanto, o amor a humanidade em Epicuro, provém apenas de forças humanas, todas as honras a esse remédio que salvará a humanidade, o amor, são para Epicuro, com o seu belo ato de acolher, ricos e pobres, homens e mulheres e até prostitutas que queiram viver tais ideais. Enquanto que nas cartas paulinas às comunidades gregas e romanas, Paulo anuncia corajosamente a fé, esperar naquilo que não se vê. Se para Epicuro, os olhos da alma são iluminados pela sabedoria, para Paulo é a confiança e a espera em Deus. No pensamento de Paulo, como apóstolo de Cristo, está depositado o tesouro do pensamento de Cristo, quando anuncia, “já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim” (Galatas 2, 20), sendo assim, não anuncia o amor que brota puramente da razão humana, mas sim o amor que brota do coração de Deus, ele é apenas um depositário deste amor.
            Para Paulo, se aqui na terra corremos o risco de ao fazer o bem o homem se depara com o mal. Mesmo assim, ele alerta para as aspirações do Espírito que é vida e paz. O homem regrando a sua vida através deste amor humano, é preciso ofertá-lo a Deus na vida presente que é apenas caminho, para que este não corra o risco de gloriar-se em si mesmo pelo bem praticado, como apresenta Epicuro.

1.2. A memória   
        
         O Jardim nos é apresentado como uma espécie de “empresa editorial”, porque as reflexões, o pensamentos e os escritos serviam e ficavam não apenas de posse dos ditos epicuristas, mas tinham a função de espalhar-se chegando a outras pessoas, a fim de levar este conhecimento ao mundo, o tornando como que uma receita, um remédio ou  uma sugestão de como se viver melhor.
A idéia de “memória” dentro da filosofia epicurista é bastante difundida através dos comentadores. É evidente que o aspecto da conservação, enquanto preservação ou perpetuamento dos pensamentos é importante e está presente em toda e qualquer filosofia.
              Sabemos da grande importância que possuem os escritos e a obras produzidas pelos filósofos. O que seria da filosofia sem os escritos ou registros dos inúmeros pensamentos? È claro que o conceito de filosofia não se restringe a idéia de uma produção ou divulgação do saber. Filosofar é muito mais do que pensar ou escrever, é mergulhar no mar do saber  na buscar do conhecer.
            No âmbito da filosofia epicurista o comentador (Américo. 1992, p. 63), nos diz que: “noutro sentido a memória é também fundamental no epicurismo: enquanto manutenção da sabedoria conquistada e da liberdade interior obtida”.
É justamente nesta dimensão da libertação do homem que se concentra a filosofia epicurista. “Assim como realmente a medicina em nada beneficia se não liberta dos males do corpo, assim também sucede com a filosofia, se não liberta das paixões da alma” (Américo, 1992. p. 68). 

1.3. O conhecimento que liberta

Para alcançarmos a liberdade e chegarmos aos parâmetros de uma vida plena em sua essência, só há um caminho que é o conhecimento. Através dele, o ser humano pode obter um padrão de vida que o possa satisfazer em relação a si mesmo e em relação a sociedade a qual ele faz parte.
Numa compreensão mais ampla, vamos nos deter ao pensamento epicurista que numa perspectiva voltada para o ideal de vida plena nos aponta esse caminho através do “conhecimento que liberta”, Epicuro diz que: “a filosofia é curativa e libertadora”. Ela é produzida pela lógica, física e ética. Lógica e física nos possibilitam chegar a ética, ou seja, a “meta desejada”.     
A lógica epicurista diz respeito a determinação de critérios que possam distinguir o falso e o verdadeiro, tornando as nossas opiniões fundamentadas decorrente a cerca de determinado estado de vida; “a vida serena e feliz”.
       Essa lógica tem sua origem na percepção das fontes de um determinado conhecimento ou idéia. Epicuro, revela duas fontes que se fundamentam na sensação que é o princípio básico do conhecimento. Uma, é a sensação representativa que produz as imagens  fantasiosas e a outra é a sensação efetiva, marcada pelo prazer e a dor.
Outro princípio usado, é o da antecipação ou prenoção, usado para separar o verdadeiro do falso, fazendo com que a mente formule idéias baseadas em sensações passadas.
Como a prenoção dispensa a percepção do objeto, surge aí uma verdade fundamentada na sensação que levará o indivíduo ao transcendental por meio dos sentidos. Porém, esse processo não proporciona chegar as pequenas partículas não visíveis, isto é, o átomo, que segundo o autor “é o fundamento de tudo o que conhecemos”.
A prenoção nos faz chegar ao conhecimento científico que nos possibilita retomar as experiências passadas, através das idéias que a mente nos formula. Com esse conhecimento científico, temos prontas as duas vias que nos introduzem na racionalidade física, que são o tempo e a memória que também conforme o autor “constituem ingredientes imprescindíveis do modo de vida preconizada pelo epicurismo”.
 Agora, podemos analisar a origem das coisas que na teoria epicurista baseada na concepção atomista de Leucipo e Demócrito. Epicuro, chega a conclusão de que “nada provém do nada”. Os seres surgiram a partir de uma sistematização e organização lógica que permeia até os nossos dias e vemos esta sistematização através dos agrupamentos de espécies, como vegetais, animais e minerais.
             Por fim, chegamos aos dois elementos que constituem o ser humano; o corpo e a alma como afirma Epicuro: “a alma humana é formada por átomos, estes por sua vez podem se degradarem ocasionando a morte, que, segundo Ariano Suassuna, “O Auto da compadecida”, “é o único mal irremediável”. Concernente com essa idéia, Epicuro ensina: “Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo mal e todo bem se encontram na sensibilidade: E a morte é a privação da sensibilidade”. (Américo, 1992. p. 72).
Epicuro trata aqui de desmistificar a morte e reduzi-lá a algo natural no desfeche da existência humana que sendo constituído por átomos como os demais seres acarretará inevitavelmente a sua degradação, assim sendo um ser mortal nunca alcançará a imortalidade, pois segundo ele “só a natureza e os deuses são imortais”. Vale ressaltar nesse momento, o caráter materialista do pensamento epicurista,  próprio da doutrina dos
<<estóicos[1]>>.
Execrados a condição de mortais, nada nos resta  como seres humanos, a não ser o que o próprio Epicuro nos aponta: “[...] viverá como um deus entre os homens e não terá nada de mortal, pois possuirá os bens imortais”. ( Américo.1992. p.73). O conhecimento de fato, nos possibilita, apesar de nossa condição de mortais, adquirir marcas da imortalidade através do pensamento que construímos, além de nos libertar das idéias que tornam a nossa vida num caos de trevas e tormentos próprios da condição de seres mortais.
Dessa forma, os que detém o conhecimento estão num patamar acima desse espaço atribulado de dores, sofrimentos e agrúrias do ser humano. Eles tem a sabedoria e são iluminados por ela, estando assim num espaço comparado ao “jardim das delícias eternas”, lugar reservado aos deuses, assim descrito pela doutrina epicurista segundo a qual: “tamanha felicidade jamais terá fim, distante do nosso atribulado mundo, completamente alheios aos sofrimentos da vida humana”. (Américo, 1992. p. 73 ).
     
 1.4. A vida feliz

Percorrendo os caminhos dos jardins, aqui, nos debruçaremos na temática do prazer, apresentada por Epicuro. Percebendo que, a ética epicurista tem relação com o hedonismo, “corrente filosófica que situa o prazer como soberano bem do homem”[2]. Para Epicuro, o homem para ser feliz deve colocar o prazer como principio e fim de tudo. Percebemos assim, que ao colocar o prazer como fundamento para a vida feliz, ele super valoriza este aspecto em detrimento dos outros, como a vida, o alimento e etc.
O hedonismo epicurista, não dá importância a qualquer tipo de prazer. Ele classifica os prazeres como: em repouso e em movimento, este ultimo logo é descartado, pois a única necessidade deste é saciar e suprir uma necessidade momentânea, enquanto o prazer em repouso, tem como finalidade eliminar a necessidade física, atingir a ausência de toda dor, todo sofrimento. Este prazer que é a meta do epicurista afasta a busca desenfreada pelos bens e luxos, pois é necessário muito pouco para se atingir a felicidade, isto é, a vida feliz. Este prazer buscado é um prazer moderado que possui um limite, não extravasa os limites da razão, e muito menos os limites físicos. Por assim ser, torna capaz ao homem uma imperturbabilidade de espírito, isto é, a “ataraxia”, onde nada pode perturbar a alma.
Ao falar  desta tranqüilidade da alma chegamos assim a classificação dos desejos, que se subdividem em três categorias: os naturais e necessários (necessidades físicas como tomar água e se alimentar); os naturais e não necessários (comidas extravagantes e o sexo); os não naturais e não necessários (riqueza, luxo e poder). Destes desejos devemos nos ater apenas aos naturais e necessários, e a eles recorrer com moderação, isto significa, que esta busca deve ser realizada com desprendimento dos bens considerados desnecessários a vida. Percebemos com isso que a ética epicurista afasta os desejos advindos por meio da civilização, do progresso, e porque não dizer na nossa realidade, daqueles provenientes da “Globalização” e do “Capitalismo” , em que o ter é alimentado cada dia mais pelo avanço da tecnologia, que proporciona cada dia mais desejos aos homens insaciados pelo poder e pela paixão, indo de encontro a ética epicurista que consiste no contentamento racional dos desejos. Para agir assim, o homem é dotado da capacidade de escolher, isto é, da liberdade de escolha, e de uma escolha neste caso pelos prazeres necessários e naturais, da anulação da dor física que se dá pelo redirecionamento mental, isto é, pela busca de imagens que auxiliem corpo e alma neste processo. Estas imagens nada mais são do que substituições mentais, representações.
Epicuro também vislumbra a reorientação da vida interior do homem para que ele fuja das situações de dor e possa conduzir a sua existência na busca do prazer. Sabemos que o ser  humano por sua própria existência vive uma eterna “batalha” em relação a essa dualidade de sensações, sendo a liberdade esse desvio, ou seja, o caminho dessa reordenação interior.
Os ensinamentos epicuristas são direcionados a relação da dor, que consiste na sabedoria, pois “o homem sábio despreza a dor e a morte. Aprender a  bem viver é aprender a melhor gerir seus prazeres [...]”[3]. Esta conquista, segundo Epicuro é adquirida mediante a vivência entre amigos, e amigos da sabedoria, não reunidos na cidade e seus barulhos, mas sim no jardim, onde os amigos se reúnem com um único objetivo, buscar a imperturbabilidade de espírito, onde todos têm vez, mesmo aqueles que são excluídos pela sociedade. Nisto consiste a  vida feliz, ser o homem capaz de anular a dor que o perturba e buscar saciar somente os desejos naturais e necessários.
Epicuro apresenta o prazer como fim e princípio de tudo, deste modo percebemos o prazer como centro de onde procede toda paz de espírito, alimento necessário para a felicidade humana. Agostinho no séc. IV, apresenta como princípio e fim de tudo “Deus”, de onde procede todo bem, paz, e tranqüilidade de espírito. Este pensamento é adquirido após a conversão ao cristianismo e o abandono do Maniqueísmo, “Doutrina criada por Manes século III, que se difundiu pelo império romano e pelo Ocidente cristão. Esta, mantém uma visão dualista da realidade, em que se encontram no mundo duas forças, a do bem e a do mal em permanente confronto”[4] .
Agostinho afirma está em Deus toda a felicidade e portanto, todos os prazeres carnais, vícios e paixões devem ser rejeitados e desprezados em nome da verdadeira felicidade. Este desprezo só é possível pelo reto uso da razão, pela prática das virtudes e principalmente pelo auxílio da graça divina que ajuda o homem em tal trajeto.
Quando Agostinho fala do desprezo dos prazeres, ele não está se remetendo aos prazeres provenientes dos desejos naturais e necessários como afirma Epicuro, mas sim do exagero, da desmedida, isto é, do uso indiscriminado da busca de saciar todos os desejos. É do vício que Agostinho fala. Esta aproximação ou afastamento dos prazeres e vícios nos é possível pelo reto uso da liberdade, bem que nos foi dado para que assim fosse-nos possível buscar à Deus livremente, isto é, por nossa própria vontade livre, por nosso livre-arbítrio e o sábio uso dele.
Enquanto a sabedoria para Epicuro é desprezar a dor e a morte, para Agostinho, esta consiste em o homem ser guiado pela razão, pela inteligência, buscando praticar somente o bem, desprezando aquilo que é contrário a sua natureza boa, criada por Deus, isto é, os vícios e as paixões. Esta sabedoria é conquistada pela vivência e pela procura da palavra e do auxilio divino, a graça.
Chegamos assim a conclusão que Agostinho nos apresenta um caminho para felicidade centrado na disposição particular que cada um possui, isto é, na sua capacidade de escolha, pois o homem é capaz de renunciar ou acolher aquilo que lhe é oferecido como prazer. A felicidade, portanto, consiste nesta busca não dos prazeres terrenos e passageiros e sim, nas delícias eternas, não é só fugir da dor, é buscar a Deus e sua pátria, onde tudo será esquecido diante da conquista suprema da liberdade eterna. Esta concepção de felicidade afasta-se da apresentada por Epicuro em que o centro é a imperturbabilidade diante da dor, onde  a felicidade se expressa na anulação do sofrimento e da dor.       


REFERÊNCIA CONSULTADA:


ÉTICA. Organização Adaulto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 57 - 85.

AQUINO; DENIZE; OSCAR. História das Sociedades - das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro. Ao livro técnico, 1980. p. 264.

EPICURO. Carta sobre a felicidade (Ameneceu). Edição bilingüe. Tradução de: Álvaro Lorencine e Enzo Del Carratore. Editora Unesp: São Paulo. 1997. p. 21 - 51.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de: Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus. 1984.

AGOSTINHO, Santo. O livre arbítrio. Tradução organização e introdução de notas de Nair de Assis Oliveira. São Pulo: Paulus. 1995.

JAPIASSÚ, hilton; Marcondes, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996


[1] Cf. JAPIASSÚ, Hilton.Dicionário Básico de Filosofia.3a .ed.Jorge Zahar. 1996. p. 92
[2] JAPIASSÚ, Hilton.Dicionário Básico de Filosofia.3a .ed.Jorge Zahar. 1996. p. 122
[3] JAPIASSÚ, Hilton..Dicionário Básico de Filosofia.3a .ed.Jorge Zahar. 1996. p. 84
[4]JAPIASSÚ, hilton; Marcondes, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996. p. 172

MÉNON




 

DIÁLOGO PLATÔNICO

MÉNON

 Análise do Diálogo

Todas as formas de abordagem de uma realidade partem de um principio de um problema central. Na Filosofia, este problema parte do ser, isto é, de toda a realidade que se apresenta como tal, não se centraliza no não-ser, pois aquilo que não é não pode passar a ser e, portanto, servir de base para investigação do ser que é, pois só ele informa algo de si.
A busca da filosofia se dá pelas causas últimas das coisas. Mas a solução do problema do ser é condicionada pela solução de um problema prévio – o problema do conhecimento – o homem deseja conhecer as causas últimas de todas as coisas. Ele não se contenta com uma mera resposta sobre aquilo que busca, mas deseja encontrar algo que o convença pelo menos momentaneamente, até que surja novas interrogações que o faça recomeçar todo o processo investigativo.
Tomando como objeto de estudo o dialogo de Platão, nos empenhamos a compreender melhor este percurso em busca do conhecimento, como ele se dá, como se apresenta e como o transmitimos, se o transmitimos.
Ele inicia com a interrogação de Ménon: “Ó Sócrates, podes dizer-me uma coisa: a virtude tem possibilidade de ser ensinada”. Aqui é introduzido o primeiro questionamento que direcionará todo o dialogo, logo em seguida Ménon faz o segundo questionamento: Ou, então, não é susceptível de ser ensinada, mas possível de ser adquirida (Ménon, 70 a). Respondendo estas duas indagações Sócrates se diz não saber o que é inteiramente a virtude, não dá uma resposta clara, coloca-se como alguém que também busca respostas. Em contra partida Ménon apresenta vários tipos de virtude, e não a virtude em geral, apresentando suas características gerais, ou até parte da virtude. Considera ainda toda ação com justiça como virtude. Respostas prontas e acabadas não surgem.
Dessa forma, o trajeto parte de uma maneira totalmente intrigante, aquele que é tido como sábio pelos homens da época, coloca-se humildemente disposto também ele a vislumbrá-lo, a galgar o que é a virtude. Sócrates passa a refutar as possíveis respostas ao problema dadas por Ménon, através de interpelações, ele o leva a ser claro nas perguntas, objetivo e autônomo nas respostas, aqui as colocações feitas por outros, como por exemplo Górgias não devem ser tidas certas, verdades absolutas, mais sim como vertentes de conhecimento, ou seja, hipóteses. Com isso algumas respostas não servem para convencê-los, devem ser reformulas, melhoras, a opinião comum deve ser descartada posto que é aparência. Lembrando que cada individuo é capaz de construir as bases daquilo que busca como resposta para seus questionamentos, visto que em seu interior já possui uma certa capacidade de compreensão, isto é, aquilo se apresenta como tal não é totalmente desconhecido, de alguma forma já se tem um entendimento, uma idéia daquilo que não conhecemos plenamente.          
Aquilo que o escravo pensa saber é desconstruído, refutado, toda cadeia de idéias é refeita, tudo que era no principio já não permanece como certo e verdadeiro, duvidas e novos questionamentos surgem. Isso leva a um segundo passo, a elaboração de hipóteses, de possíveis respostas aos problemas colocados no palco do conhecimento, da busca.
Através da experiência maiêutica que tem um extraordinário alcance demonstrativo inicia-se um desvelamento das idéias. Sócrates interroga um escravo e consegue fazê-lo resolver, apenas interrogando-o socraticamente com o método maiêutico uma questão complexa de geometria, implicando em substância, o conhecimento do teorema de Pitágoras. Portanto, assim a argumentação passa a demonstrar que o escravo não havia aprendido geometria antes e que ninguém ditou-lhe a solução, ele soube conquistá-la sozinho, embora auxiliado, nos levando a concluir que ele tirou-a de dentro de si mesmo, da própria alma, ou seja, “lembrou-se” dela. Aqui é claro, que o escravo, como todo o homem em geral, pode tirar e extrair de si mesmo a verdade que antes não percebia e que ninguém lhe tinha ensinado, sustentando a argumentação que “saber é recordar”.
Depois do dialogo inicial entre Ménon e Sócrates, o escravo de Ménon passa a ser levado a buscar o conhecimento sobre figuras geométricas, mesmo sendo escravo, ele também é capaz de chegar ao conhecimento, visto que possui uma condição essencial para isso a língua vernácula, sua condição de escravo não é empecilho para conhecer, para buscar algo que julga não possuir.
Após o dialogo com o escravo, Sócrates passa a construir com Ménon uma resposta ao problema. O conhecimento é Reminiscência, é recordar, é um vir à tona daquilo que já existe no interior da alma. A alma possui, portanto, suas próprias verdades que não aprendeu antes na vida atual, no entanto estão encobertas, mas podem ser desveladas à consciência, quer dizer que ela já as possuiu como próprias desde sempre, antes do nascimento chegamos assim a uma conclusão: a alma é imortal. Eis a conclusão que Sócrates deduz, por meio da experiência maiêutica, que o escravo inculto, guiado somente por perguntas claras e objetivas, soubera resolver um problema difícil de geometria e alcançar a verdade. Nesse percurso o método é essencial. Pois assim é colocado literalmente para fora o que a alma conhece. 
O conhecimento passa assim a se apresentar como algo que pode ser retirado passo a passo, esse processo acontece de forma clara e continua o sujeito aqui é conduzido ao conhecimento, ao saber, a perceber aquilo que existe em seu interior, a passar do “vale do esquecimento” para a luz daquele que saiu da caverna.  Ora a alma, segundo a teoria do conhecimento de Platão, possui de maneira inata essas idéias que podemos alcançar desde que saiamos do mundo visível e vivamos num mundo de contemplação. Existem portanto, dois mundos distintos, um invisível, eterno, imutável, ideal e concreto, onde as idéias eternas e perfeitas residem. O outro mundo é inferior, é físico, visível, indefinido e mutável, portanto, perecível.
Assim, deve haver uma passagem de um mundo aparente para o mundo das idéias perfeitas e esse caminho deve ser buscado incansavelmente. Na concepção Platônica a alma está presa ao corpo devido aos prazeres, dores e paixões, tão combatidos mais tarde por Santo Agostinho de Hipona, tanto um como outro os coloca como impedimentos no caminho da sabedoria e da virtude. O papel da filosofia é desprender a alma do cárcere corporal, deixar os sentidos que são falhos, e se debruçar sobre as virtudes, libertando-a. Por isso, o filósofo não pode ceder aos seus prazeres e desejos, mas usar de forma pratica e sabia a razão.
Portanto, o dialogo nos leva a perceber que o problema do conhecimento não é tão simples como muitos teóricos e estudiosos ao longo dos séculos disseram. Pensar o conhecimento, é pensar que ele pode ser construído, essa construção faz-se necessária para que o individuo encontre respostas para suas interrogações, fato que desde os primórdios desperta inquietações “qual o principio de todas as coisas”, “porque existimos”, “de onde vinhemos” e “para vamos após a morte”. Muitas respostas foram postas a prova, desde Tales de Mileto, passando por Sócrates, Platão, Aristoteles, Agostinho, Tomás de Aquino e Descartes, o homem busca conhecer aquilo que pensa ou tem certeza de não saber. Desde os pré-socráticos até os nossos dias, a verdade, o saber, a virtude, a sabedoria, o bem, o mal, o ser, em fim a episteme é buscada.
A obra por nós estudada reforça ainda mais essa necessidade de compreender o sentido, o que de cada coisa ou situação da vida, para tanto percebemos que já possuímos pequenas parcelas do saber, mesmo que puramente imperfeitas e parciais, portanto, surpreendentemente pequenas diante da vastidão das coisas e do que elas são perante o mundo visível e o mundo das idéias, visto que este ultimo percebo eu, concordando com o filósofo que é “uma cópia imperfeita, daquilo que é perfeito no mundo das idéias verdadeiras”.
Discutir se a virtude é saber, se é ensinada, se o homem sábio é o filosofo, o governante perfeito, se a alma é imortal ou mortal, se existe um outro mundo além deste que conhecemos é buscar o sentido das coisas, mesmo que as respostas não sejam definitivas, o que nos convence aqui não é a certeza, mas a inquietação perante o desconhecido. O mundo atualmente se acostumou a encontrar as respostas que busca de uma maneira cada vez mais simplificada, “clara e concreta”, estas por sua vez não se compravam, não pela sua certeza mais sim pelo vazio que deixa naqueles que as encontram, a superficialidade das coisas se apossou de nós, nos deixando entregues muitas ao vazio do conhecimento moderno.
Concordar que as coisas podem ser ensinadas, dentre elas a virtude é dizer que aquele que ensina é virtuoso e que essa mesma virtude vai ser absorvida pelo aluno, ele não será capaz de tomar outro caminho visto que foi conduzido ao bem, a verdade. Do lado inverso, é dizer que os bons costumes não são aprendidos de nossos pais e professores, que aquilo que temos como certo e justo retiramos de alguma forma de um lugar misterioso, aqui entendido como “do interior da alma”, “do mundo das idéias”, e portanto, passamos pelo um processo de recordação, de uma experiência já vivenciada, onde o pensar e o refletir nos direcionará ao caminho inicial, visto que teremos sempre um conhecimento a desvelar. Conclui-se que o conhecimento vai muito além de tudo isso que fora discutido aqui, chegar a uma resposta clara e objetiva, e, portanto, definitiva é ser pretensioso de mais, prefiro ficar com a máxima: “só sei que nada sei”, diante disso continuo meu trajeto.  
          

NATUREZA DA LIBERDADE EM AGOSTINHO



A NATUREZA DA LIBERDADE EM SANTO AGOSTINHO

RESUMO
O nosso estudo versa sobre a liberdade em Santo Agostinho, que tem como princípio e fim o Criador. Ao criar o homem, Deus infundiu em seu coração o desejo de fazer somente o bem, dando-lhe porém a liberdade de obedecê-lo ou não. Ao desobedecer, o primeiro homem, Adão, optou livremente por não seguir as ordens de Deus e assim, sua vontade declinou de um estado perfeito para um estado de pecado e de vícios. Desse modo, o homem passou a ser dominado pelos desejos desmedidos, que por sua vez só podem ser combatidos pelas virtudes cardeais: fortaleza, temperança, justiça e prudência. Neste combate o homem terá a possibilidade de recuperar aquilo que fora manchado pela atitude de Adão. Para tanto, a razão funciona como luz que ilumina a mente desvendando as verdades e desejos do coração. Com isso a mente caminha iluminada pela sabedoria, esta por sua vez fornece a maturidade diante dos desejos. O homem cultivando a sabedoria terá a chance de traçar os caminhos da liberdade com mais segurança e responsabilidade. Para auxiliá-lo neste trajeto o Criador deu-lhe a ajuda da graça, a qual o guia e fortalece, para que assim ele possa desejar o bem, aquilo que o faz realmente feliz e livre. Isto, segundo Agostinho, só é possível com a ajuda divina, pois sozinho ele não consegue desejar e realizar em suas ações somente o bem. A graça, portanto, fortalece a vontade, inibe os desejos desregrados fazendo com que o homem desfrute dos bens terrenos sem ser a eles submisso, ou seja, sem ser por eles escravizadas, ao ponto de abandonar o reto agir. Contudo, esta liberdade torna-se plena quando o homem vive segundo a Verdade, que o conduz e planifica o querer humano, sem dúvida é Deus. Nele, é possível viver com liberdade, desejando somente o bem, renunciando ao pecado e ainda participando da impecabilidade divina, não podendo e desejando mais pecar. Neste caso, o bem se torna tão infuso em sua alma que ele se sente totalmente livre para viver entres os homens na presença do seu Criador. Percebemos que, a sua liberdade de escolha não é deixada de lado, mas auxiliada a buscar o bem. Portanto, a liberdade procede de Deus como todos os outros bens e nele tem seu fim, sua plenitude.               


PALAVRAS CHAVE: LIBERDADE – GRAÇA – DEUS

O trajeto feito pelo homem em busca da Liberdade

  O trajeto feito pelo homem em busca da Liberdade


 Nas diferentes etapas da história humana a busca pela liberdade esteve sempre presente. Estes mesmos homens buscaram se libertar das diferentes modalidades de escravidão, entre estas podemos citar a escravidão exercida pelos reis, faraóis, senhores, coronéis e tantas outras formas. A busca pela liberdade era em sua maioria a única realização desejada, o único sonho, e para consegui-la muitas vezes a vida era colocada em jogo.

Diante de tal busca, nos propomos a apresentar o que seja a liberdade, como a entendemos como a conhecemos. Liberdade é Ter o direito de decidir, é poder agir segundo sua própria vontade, não está sujeito a nenhum senhor ou mecanismo de tortura, não sendo modelado ou aprisionado por nada, em outras palavras ser livre para ir e vir.

A liberdade, portanto, seria esta vontade livre que o homem possui, capaz de guiá-lo nos caminhos de sua história, possibilitando ao mesmo uma opção, isto é, a oportunidade de escolher de acordo com seus sonhos e interesses qual o trajeto a ser seguido.

Mesmo o homem possuindo esta vontade livre, ele deve conquistar a cada dia a oportunidade de colocá-la em prática, enfrentando os obstáculos que podem impedi-lo. Diante de tantos desafios impostos ao homem percebemos que ele busca uma liberdade para sempre, aquela liberdade que não seja mais necessário travar batalhas diárias, mas sim um descanso merecido depois da realização.

VICIOS E PAIXÕES


Os vícios e as paixões, limites para liberdade

Deparando-se com a realidade que está inserido, o homem encontra desafios significantes no exercício de sua liberdade, ele é submergido em obstáculos provenientes de seu interior e por aqueles provenientes da realidade social em que vive.

Conhecendo a verdade, guiado pela vontade, e livre para escolher, ele é constantemente seduzido a abandonar seus primeiros desejos, aqueles que nascem na alma, provenientes de Deus. É da alma que os verdadeiros e salutares desejos emanam, e, é por isso que é ela a primeira a ser corrompida, o que culminará na escravidão de sua vontade, que não mais obedecerá a força da verdade e sim aos desejos e apetites desregrados.  

Dominado por esses desejos, que no início surgiram como hábitos, pequenos desejos, que logo em seguida tornaram-se necessidades, isto é, necessidades incontroláveis, vícios, procurando a todo custo saciá-los.

O amor, sentimento belo e precioso que brota do coração apaixonado, envolvendo e transformando o homem, também é corrompido pelos vícios. Dominado, o coração não é mais impulsionado pela alegria de um sentimento, mas sim pelo desejo de debruçar-se sobre seus apetites mais íntimos.

O prazer pessoal ganha o lugar central em sua vida, não dando espaço para a alegria comum e verdadeira. O jogo a bebida são exemplos de vícios que o dominam não deixando espaço para uma realização completa que transforma e liberta.

A alma passa a não mais desejar e buscar os bens eternos, mas sim aqueles que são temporários e passageiros, que logo passam como a fumaça, deixando em seu ser o vazio, o fazendo continuar buscando a satisfação cada vez mais em objetos e circunstâncias desmedidas. 

Diante das paixões humanas, a mente exerce um importante papel, é ela capaz de dominá-las, de desvendar a verdade de seus resultados, exercendo com justiça o papel de esclarecer e iluminar o homem, tirando-o das trevas, mostrando-lhe a luz, uma luz capaz de revelar e indicar o reto caminho. “[...] A mente dotada de virtude não poderia de modo algum ser um ser injusto. Tampouco, ainda que esse tivesse esse poder, ele não forçaria a mente a submeter-se às paixões”. (AGOSTINHO, 1995, p. 51). A mente por ser justa não se torna cúmplice das paixões, provando assim que não há nenhuma outra realidade que torne o homem escravo a não ser a sua própria vontade livre, sua escolha livre.

ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES DE KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS PARA AS LUTAS SOCIAIS

INTRODUÇÃO

Na historia da humanidade, o homem sempre esteve dividido entre duas vertentes que o direciona: aquilo que está posto e aquilo que deveria ser. Com isso, a escolha de cada um implica automaticamente na vida do outro e os movimentos sociais contribuem para que o que está posto seja questionado e criticado através de uma postura de contestação e protesto.
Os movimentos sociais ganham força com a Revolução Industrial[1] em 1789 e se espalham por todo o mundo como alternativa para a luta por melhores condições de vida, seja no campo social ou político. O sistema feudal já não tinha mais poder na sociedade, suas regras e costumes não ditavam mais as regras econômicas e religiosas, tendo em vista que nesse período a Igreja Católica começa a perder sua hegemonia religiosa e ideológica.
Uma característica importante dos movimentos sociais é a ação coletiva, isto é, o ato coletivo é quem dita e rege toda ação estratégica que é tomada como foco rumo ao objetivo esperado.
É nesta linha que se destaca, demonstra seu importante papel como meio transformador e modificador de uma realidade social conflitante. Sendo assim, tem-se importância de que um ato solitário não tem o mesmo poder de que quando a união de varias forças se junta com o mesmo ideário de luta.
Diante disso, trazemos Karl Marx[2] e Friedrich Engels[3] para esta discussão, eles que foram importantes defensores e incentivadores das lutas sociais, isto é, eles com seus pensamentos alimentaram o desejo da classe operaria para lutar por seus direitos, por melhores condições de trabalho.


[1] A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Iniciada no Reino Unido em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX.
[3] Engels nasceu em Barmen, 28 de novembro de 1820 e morreu em Londres, 5 de agosto de 1895 foi um teórico revolucionário alemão que junto com Karl Marx fundou o chamado socialismo científico ou marxismo. Ele foi coautor de diversas obras com Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto Comunista. Também ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital, principal obra de seu amigo e colaborador.


   CONTRIBUIÇÕES


Desde os primeiros escritos, Marx ao dizer que “a história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”. já sinalizava uma vertente critica, se posicionava a favor de uma classe, que até então era tida como explorada e destituída de muitos direitos. A classe operaria os proletários, deveriam LUTAR, não se render ao sistema capitalista e suas imposições, pois “a burguesia permite ao proletariado uma única usurpação: a da luta”.
As transformações no mundo do trabalho deveriam acontecer, para que aqueles que estão na base da pirâmide pudesse ascender e ter seu lugar ao sol da mesma forma que os capitalistas o tem.
                                    Aos operários não restava outra escolha: ou morriam de fome ou iniciavam uma luta. Responderam, em 22 de junho, com imensa insurreição na qual se travou a primeira grande batalha entre ambas as classes em que se divide a sociedade moderna. Foi uma luta pela manutenção ou destruição da ordem burguesa. O véu que encobria a republica rasgou-se. (MARX, 1818-1850, p. 92)
O conflito era inevitável, pois de um lado estavam aqueles que detinham todo o poder e o capital e do outro aqueles que possuíam exclusivamente sua força de trabalho que era explorado e desvalorizado.
Com a ascensão da classe operaria e consequente perda do poder aconteceria uma libertação da classe operaria do jugo dos opressores. Uma sociedade igualitária onde todos tenham os mesmos quinhões não duraria por muito tempo, isto se dá também por ser o consumo destes diferenciado, alguns começariam a guardar e acumular o que com o tempo provocaria uma ascensão de alguns, semelhante aos sistemas do passado como o absolutismo, escravismo e feudalismo.
O homem seria livre quando não depende de um trabalho assalariado, imposto pelo capitalista que dita às regras e deveres, não permitindo ao operário a liberdade de se expressar diante daquilo que foi estabelecido nos contratos de trabalho. O vinculo empregatício, assalariado não mais determinaria a vida do operário, tendo em vista que ele teria sido libertado do cárcere da alienação.
Por outro lado o pensamento de Marx de certa forma alimentou a discórdia e a rivalidade entre os subalternos e patrões, entre pequenos e grandes. Isto se dá por ser o poder uma riqueza capaz de ultrapassar todas as esferas da sociedade e quem o possui jamais quer perde-lo. Este poder está presente desde a política até a religião influenciando e a vida das pessoas, pois ele é capaz de dividir e separar até os mais calorosos amigos.
Em todas as relações humanas ele está presente, e nos movimentos sociais não poderia ser diferente, é contra ele que se lutar, tentando contestá-lo, desmistificá-lo.
Claro que isso em certos momentos é totalmente utópico, pois por trás de um sistema de poder existe todo um arcabouço de relações e estratégias para a manutenção de tal modelo. Marx lutou contra isso ao defender seu ponto de vista, permitiu que situações conflitantes acontecessem ao redor em nome de uma luta ideológica capaz de modificar a consciência daqueles que no futuro iriam ter contato com seu pensamento.
Pensar uma sociedade sem classes, sem o poder do Estado e sem o capital como manutenção do sistema vigente em detrimento da sociedade que vive a quem, as margens, seria uma utopia sem tamanho. Este sonho pode ser pensado no século XIX, pois ai as transformações tecnologias e cientificas não comandavam e determinavam a vida das pessoas como hoje, o fetichismo e o escravismo comercial não eram tão determinantes.
No entanto, a interpretação ao longo dos anos por muitos dos seus seguidores trouxe para história da humanidade consequências desastrosas, capaz de aniquilar vidas e sonhos em prol de uma busca desesperada de imposição de um sistema alienante e excludente, que tinha como mascara a igualdade e a ideia de um novo rumo.
Esse novo mundo ideal nos leva a pensar no mundo das ideias de Platão, em que o real seria apenas uma copia imperfeita daquilo que existe em perfeição num plano superior. Nesse sentido seria o pensamento de Marx uma ideologia, uma forma utópica de esperar um mundo mais igualitário, nele todos seriam semelhantes depositários e recebedores das mesmas dádivas criadas pelos homens.
A realidade é que enquanto o operário sonha em ganhar o seu salário para suprir suas necessidades, tendo melhores condições de trabalho, o patrão pensa em aumentar a jornada de trabalho e diminuir o capital investido em salários. A mais-valia, assim alimenta o bolso do patrão e escraviza o empregado que se sente preso ao sistema imposto por pensar que lhe deve favores ou por medo da demissão.
Nesse sentido Marx trouxe uma grande contribuição para a sociedade de seu tempo e até hoje se destaca pela discussão abrangente de seu pensamento. Ele colocou o homem no centro no mundo do trabalho, deu a ele o seu verdadeiro lugar, valorizando-o, transformando-o em ser referencial da sociedade em detrimento da mercadoria produzida, demonstrando que seu lugar não deveria ser um escravo da sociedade, uma moeda troca que se valoriza conforme a demanda imposta pelo capitalismo e seu modo de ser destruidor.
Nesse ponto em destaque Marx saiu um pouco do mundo ideal e foi para o pratico, o real, onde tudo se transforma e se refaz. Aqui ele deu ao homem o papel de agente histórico capaz de ele mesmo transformar sua historia através da consciência de seu lugar na sociedade, fugindo da alienação do pensar e principalmente do agir.
Outro ponto que nos leva a refletir no pensamento de Marx é sua concepção de trabalho. Para ele, trabalho é toda ação que é capaz de transformar a natureza das coisas, transforma a natureza existente em outra através do ato de seu trabalho, materializada a partir de sua capacidade teleologia.

APROXIMAÇÕES CONCLUSIVAS

Diante de tudo que aqui foi exposto sobre o pensamento de Marx cabe-nos algumas refutações a cerca de sua contribuição intelectual inovadora para época. Tendo em vista que o que escreveu foi sim uma nova visão de homem, de trabalho e de sociedade, isto não quer dizer que tenha sido a mais correta, mas que trouxe um ponto de relevante importância para o meio social e intelectual.
Ele pregou uma sociedade utópica e inexistente, um mundo ideal, ao vislumbrar a mesma sem o Estado, o sistema capitalista e os modos de produção existente. Um sistema que não se sabe claramente qual seria, pois com a derrocada do capitalismo milhões de pessoas estariam destruídos, sem rumo, verdadeiros fantasmas vivos.
Este novo modelo poderia ser uma versão melhorada do socialismo d e do comunismo implantados em alguns países ou ainda uma humanização do capitalismo vigente, em que o homem seria o centro e não a acumulação e o enriquecimento dos grandes capitalistas a razão de sua existência. Mas penso eu com certeza que essa nova proposta seria o céu aqui na terra em que os homens viveriam sem ganância, poder, exploração, numa irmandade digna de um sentimento tão profundo de sobrevivência pura e sem destruição.
Estes sentimentos não seriam os religiosos é claro, pois a religião na opinião de Marx seria o ópio, capaz de retirar a verdadeira noção do real, ou do imaginário que insiste em si tornar realidade.
O humanismo marxista esbarra na trajetória vivida por ele, tendo em vista que enquanto buscava colocar o homem no centro, dignificá-lo, sua família padecia por seu descaso e constante busca de divulgar e defender seus pensamentos e ideias, ao ponto de ele mesmo reconhecer sua falha em permitir que os seus padecessem sofrimentos irreparáveis ao longo da vida.
Somos produtos da realidade histórica e de suas transformações dinâmicas, não somos meros arcabouços teóricos, em que a regra de um sistema todo ele coerente é capaz de dá respostas claras e objetivas.
Pensar uma realidade tão distante de nossos olhos nos leva a perceber que o utópico sempre esbarra na pratica, pois alimentamos sistemas, sonhos e paradigmas, construímos ideologias com o objetivo de sanar nossas deficiências de compreensão do mundo. Com isso esquecemos que tudo que existe é fruto sim de uma racionalidade estratégica e gananciosa.
Quando questionamos o capitalismo e suas manipulações, damos a ele um papel que não lhe cabe, o colocamos como criador de todas as miserabilidades existentes. É ele quem cria rege e transforma as regras de sobrevivência da sociedade.
Eu diria que tudo isso não passa de uma invenção teórica mal infundada, que tenta tirar do homem seu papel de agente transformador da realidade, que a todo custo refaz o que está posto de acordo com seu bel prazer. Não é o capitalismo que destrói o homem e sim é o homem que usa o capitalismo para se destruir de forma clara e consciente, assinando um atestado de plena colaboração para seu fim ultimo.
Para mim Marx foi um homem comum que tentou discutir temas relevantes para época e que alguns deles ainda se aplicam aos dias atuais, principalmente no que tange a capacidade de metamorfose do capitalismo. Já como homem deixou a desejar por sua postura alienada e destituída de sentimentos como caridade e respeito principalmente aos seus que padeciam ao seu por uma causa que não era sua.
Em quanto Marx escrevia e questionava a sociedade, o seu mundo desmoronava, pois a incompetência de ser sustentado durante grande parte de sua vida pelo seu amigo Engels, que bancava uma vida de leituras e noites debruçadas em livros e tintas era nítida. 
Sendo assim, é bastante conveniente criticar o capitalismo, o Estado e todo o sistema vigente, enquanto se tem alguém que banque uma vida de estudos e produções acadêmicas. Não precisando enfrentar os dias sombrios de trabalho em condições indesejadas e desfavoráveis a saúde.
A critica dessa forma flui suavemente, destituída de qualquer cansaço, livre acima de tudo sem amarras ideológicas, capaz assim de fazer um percurso itinerante entre o bem e o mal, o rico e o pobre, entre o real e o utópico sem compromisso com a práxis da vida cotidiana.
O grito fluirá com força e vontade, sem medo de faltar o pão e o leite da mesa: “operários do mundo todo uni-vos”.
 

LIBERDADE EM SANTO AGOSTINHO

         
 


        Desde os primórdios os homens lutam uns contra os outros, seja por alimento, seja por moradia. Nesta constante luta tentam se afirmar, como pessoas que tem sua individualidade, mesmo vivendo em bandos, clãs, famílias e finalmente em sociedade. 

         Vivendo em condições de seres sociais que estabelecem relações recíprocas, os homens enfrentam desafios maiores que os enfrentados nas outras etapas, pois nelas as leis civis não controlavam seus instintos comportamentais, entre os quais destacamos o uso da liberdade, que o homem constantemente busca afirmar perante aqueles que estão ao seu redor, ao contrário da vivência em sociedade, em que todas as normas são estabelecidas pela lei.
          Nesta contraposição entre individualidade e sociedade o homem pode com suas atitudes impedir ou proporcionar o uso da liberdade do outro, pois a vida em sociedade implica na limitação da liberdade para todos os seus membros.
     A partir desta configuração, nos sentimos impulsionados a desvendar nas entrelinhas do pensamento filosófico agostiniano sua concepção de liberdade. Sendo assim, nos aventuramos nas obras de Agostinho (354-430), filósofo e teólogo do período patrístico. Buscamos respostas que nos ajudam compreender a liberdade humana, temática tão discutida ao da história.     
          Iniciamos nossa pesquisa pela obra “O Livre-arbítrio”, pois Agostinho apresenta a concepção de liberdade imbuída de um entrelaçamento entre pensamento filosófico e teológico, com o intuito de alertar e esclarecer seus amigos e leitores em relação ao Maniqueísmo - doutrina criada pelo persa Mani no século III, fundamentada em duas divindades supremas que presidem o mundo – o bem e o mal. Agostinho esteve inserido nessa seita por 9 anos.
          Após a conversão ele tenta combater a noção maniquéia de que existem dois princípios supremos, coeternos criadores do mundo a presidir o universo: o Bem e o Mal – a luz e as trevas. Tais princípios vivem a combater entre si, este combate que é realizado a pé de igualdade, ambos de natureza corpórea. O Bem (Deus), não seria o único principio criador, o mal (diabo), exerceria seu poder sobre a natureza, Isto é, sobre as coisas corporais.
            O homem não seria livre para praticar suas ações, este princípio mal exerceria sobre ele um poder o impulsionando a agir contrariamente a sua natureza livre. Por conseguinte toda responsabilidade humana não passaria de uma ilusão, pois dentro de si mesmo cada homem carregaria uma mistura de trevas e de luzes. Isto isentaria o homem das más ações, isto é, da qualidade do pecado, pois não seria ele, mas o mal nele presente que as realizaria.
          Agostinho acredita que é do homem que parte o desejo de pecar, sendo dele também a responsabilidade de suas ações. Ele, no entanto, não é capaz por suas próprias forças de vencer os obstáculos do trajeto para a liberdade plena, pois estes obstáculos só podem ser vencidos pela força da graça.
          Percebemos que do mesmo modo que o livre-arbítrio da vontade procede de Deus, seu fim também é Deus que nos direciona a Ele. Portanto, a liberdade primeira, aquela que fora dada a Adão, perdida pela desobediência, será recuperada e constituirá no não poder pecar. Esta será dada ao homem como dom divino, constituindo a participação do mesmo na impecabilidade divina, isto é, na capacidade de não mais pecar. A primeira liberdade, aquela dada a Adão, foi nos dada para que por meio dela pudéssemos buscar esta última, a liberdade plena. O homem viverá tão plenamente a sua liberdade que o mal e suas cadeias não mais exercerão seu poder sobre sua natureza. 
Desse modo, para entendermos a concepção de liberdade apresentada por Agostinho, procuramos traçar alguns objetivos que nos ajudassem em nossa análise: Contextualizar o período em que Santo Agostinho viveu, apresentando os principais pontos do seu pensamento percebendo o entrelaçamento entre filosofia e teologia; Buscamos perceber no pensamento agostiniano acerca da liberdade a influência dos vícios e das paixões sobre a vontade humana; Por último, buscamos enfatizar a importância da sabedoria e da graça na superação das limitações humanas em busca da liberdade. 
Para tanto, sistematizamos o nosso trabalho monográfico em três capítulos: No primeiro, apresentamos o contexto histórico da filosofia agostiniana, situando-o no tempo e na história, destacando as influências sofridas por ele em sua trajetória intelectual; No segundo capítulo, percorremos o trajeto feito pelo homem em busca da liberdade, percebendo seus primeiros fundamentos, sua queda nos vícios e nas paixões destacando que eles impedem que o homem tenha a capacidade de fazer suas escolhas livremente, e o auxílio constante das virtudes na superação daqueles; No terceiro capítulo, procuramos apresentar a liberdade em plenitude, enfocando a importância da sabedoria e da graça divina, no exercício constante de fazer o bem, isto é, da liberdade, esta que tem como seu princípio e fim Deus. Assim, demonstramos como na filosofia agostiniana é possível o homem alcançar a liberdade plena.
          Certamente a abordagem sobre a liberdade discutida em nosso trabalho, nos leva a refletir sobre sua importância na sociedade em que vivemos, considerada por alguns como “civilizada e moralmente livre”. Distante ou próximo do seu Criador, cada homem, é convidado a viver sua liberdade com plenitude e responsabilidade, possibilitando a si e aos outros a chance de viver livre, fazendo o bem.